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| Eyes as burning flames. |
As íris eram azuis, mas nem de longe aquele tom de azul que lembrava a imensidão ou a frieza do mar, muito pelo contrário. Eram olhos de um azul cobalto, cheio de reflexos vivazes, que quando iluminados pareciam incadescentes tal a plenitude com que a luz os atingia.
Aquele azul o mesmerizava. Ele achava que poderia fitá-los por toda a eternidade, sem cansar - sempre encontrando, afinal, uma nova e soberba matiz.
Mas então a campainha que anuncia o final do horário toca e todo o azul eterno pela qual ele anseia sai saltitando porta a fora.
As outras meninas se despedem, ele acena, gentil, mas alheio. Depois que a sala está vazia, ele coloca ambas as mãos na testa, e massageia-a, como se assim pudesse controlar aquela enxaqueca. Mas ele não poderia, simplesmente não poderia.
A única forma de parar aquela dor de cabeça era se entregar. Era esquecer da vida e viver seus desejos secretos. Era realizar seus sonhos oprimidos pela tão exigida normalidade. Esse era o único jeito de encerrar, de uma vez por todas, aquela dor de cabeça maldita.
Agora, ele fecha os olhos. Pensa em tudo que tem. Uma casa própria suburbanamente mobiliada, um carro, emprego fixo, uma esposa adoravelmente estéril... Jack, pós-balzaquiano, tinha, em suma, tudo o que o modo de vida capitalista ordenava ter. Era bem sucedido aos olhos de todos que o rodeavam, financeiramente independente e ainda poderia ter direito a certo luxos além daqueles dos pequenos-burgueses.... Para os outros, ele tinha tudo.
Mas internamente, Jack sentia que sua vida era uma bosta de um marasmo. Como um grande campo em cinza. Algo uniforme e totalmente desprovido de emoção. Sua bela, sensual e seca esposa lhe sorrindo todos os dias no café da manhã. Os rostos de alunos desinteressados da manhã até a noite. E a noite, o sono ao lado do corpo tão conhecido - uma vez ou outra com direito a concessões sexuais.
E, então, subitamente, a imagem de uma grande estrada veio-lhe a cabeça. Viagem.
Viajar não daquela forma sedentária e comercial que o mundo moderno cultivou, mas daquela forma imprevisível e selvagem de quando os homens eram nomâdes. Sim, isso seria no mínimo um grande alívio para quebrar a rotina.
Depois daquilo, vieram os olhos azuis.
Tão cheios de vida e empolgação, algo da qual a vida de Jack precisava urgentemente. E esses olhos trouxeram consigo sua dona, uma espevitada jovem aluna de dezesseis anos. Tão inocente, mas tão voluptuosa. Como um demônio em vestes angelicais. Ana, era o nome daquela pequena ninfa que virava a cabeça do Professor com tanta facilidade.
E agora aquelas duas idéias se entrelaçavam na mente dele. A imagem de uma longa estrada e a da menina.
Ele só queria poder uni-las e fundir-se a ambas da forma mais profunda e íntima possível. Talvez, aí sim, a vida melhorasse.


