quinta-feira, 28 de julho de 2011

Jim Morrison e O Simbolismo

Rascunho
Introdução

Os poetas-xamãs

Um poeta torna-se um sonhador através de um longo, ilimitado e sistemático desregramento de todos os sentidos. Todas as formas de amor, de sofrimento, de loucura; investiga-se a si próprio, consome dentro de si todos os venenos e preserva as suas quintessências. Um tormento indescritível, onde irá encontrar a maior fé, uma força sobre-humana, com que se torna, de entre todos os homens, o grande inválido, o grande maldito – e o Supremo Cientista! Pois alcança o desconhecido! E que interessa se for destruído no seu vôo extático por coisas inauditas e inomináveis...”.

Arthur Rimbaud (extraído de “História, Performance e Poesia: Jim Morrison, o xamã da década de 1960.”. de Rosângela Patriota.).

Xamã é o sacerdote ou sacerdotisa do xamanismo que entra em transe durante rituais xamânicos, manifestando poderes sobrenaturais e invocando espíritos da natureza, chamando-os a si e incorporando-os em si. Este contato em êxtase permite a recepção de orientações e ajudas dos espíritos para resolver ou superar situações que desafiem as pessoas e seus grupos sociais.”.
(extraído de Wikipédia)

                Na França do final do século XIX nasceu uma geração artística que, indo na contramão da modernidade de seu tempo, buscava o infinito e o abstrato através de artifícios como o apelo aos sentidos, a musicalidade de uma rima exótica e trabalhada e ainda palavras que abandonavam o mero status de signo para adquirirem a condição de símbolo.
Didaticamente essa expressão da Arte ficou conhecida como Simbolismo, vertente literariamente nascida na França e encontrando sua semente em Charles Baudelaire com a polêmica obra “As flores do mal.”. Com uma poética marcante e de uma maestria pouco vista até então na Arte mundial, os representantes do Simbolismo propuseram-se a abrir ao público as “portas da percepção” com sua expressão onírica tão incomum para uma época seca, absolutamente fascinada com a tecnologia crescente.
Foram imortalizados para o bastião da história humana nomes desse movimento como Arthur Rimbaud, Paul Verlaine e Stéphane Mallarmé.
Em um cenário não menos caótico e divergente um século depois nasce o vocalista da banda The Doors, James Douglas Morrison, no dia 08 de dezembro de 1943 em Melbourne, Flórida. Filho de pais conservadores teve sua juventude marcada pela leitura de grandes pensadores e artistas, o que avultou-lhe desde cedo uma inspiração atípica para a maioria dos jovens de sua idade. Dentre essas inspirações estão os próprios simbolistas.
Jim Morrison lia, principalmente, Rimbaud e a evidência da influência dele refletiu na produção musical e literária do vocalista do Doors. Até nos palcos isso é perceptível, num momento onde a convenção da apresentação pregava que os cantores, fossem integrantes de bandas ou de carreira solo, seguissem a etiqueta do showman, Jim alterou – como os simbolistas haviam feito séculos antes ao inovar desafiando as convenções poéticas – o quadro trazendo um comportamento desregrado e imprevisível para os espetáculos dos Doors. Ele não agia só como o integrante de uma banda, ele propunha-se a desempenhar o sacerdote nas libações a Dionísio ou então tentava representar o grande mágico das tribos primitivas, o xamã.
O mesmo xamã que enfrentava o longo, ilimitado e sistemático desregramento de todos os sentidos” que Rimbaud pensou, um feiticeiro cujo delirante êxtase é tão poético quanto os infinitos sonhados nas pinturas de William Blake e de uma loucura tão possessa quanto a de Jim. Assim convergindo do misticismo antigo, passando pela poesia do século XIX e acabando no rock and roll dos anos 60, a natureza da experiência transcendental que o xamã encarnava pela tribo é similar a produção poética dotada de impossível sinestesia do Simbolismo e ao psicodélico trabalho artístico dos Doors e de Jim Morrison, e no trabalho que aqui segue a proposta é explorar essa temática.

sábado, 9 de abril de 2011

Beat the Way

 O rascunho de um começo de uma história.

Eyes as burning flames.

As íris eram azuis, mas nem de longe aquele tom de azul que lembrava a imensidão ou a frieza do mar, muito pelo contrário. Eram olhos de um azul cobalto, cheio de reflexos vivazes, que quando iluminados pareciam incadescentes tal a plenitude com que a luz os atingia.

Aquele azul o mesmerizava. Ele achava que poderia fitá-los por toda a eternidade, sem cansar - sempre encontrando, afinal, uma nova e soberba matiz.

Mas então a campainha que anuncia o final do horário toca e todo o azul eterno pela qual ele anseia sai saltitando porta a fora.

As outras meninas se despedem, ele acena, gentil, mas alheio. Depois que a sala está vazia, ele coloca ambas as mãos na testa, e massageia-a, como se assim pudesse controlar aquela enxaqueca. Mas ele não poderia, simplesmente não poderia.

A única forma de parar aquela dor de cabeça era se entregar. Era esquecer da vida e viver seus desejos secretos. Era realizar seus sonhos oprimidos pela tão exigida normalidade. Esse era o único jeito de encerrar, de uma vez por todas, aquela dor de cabeça maldita.

Agora, ele fecha os olhos. Pensa em tudo que tem. Uma casa própria suburbanamente mobiliada, um carro, emprego fixo, uma esposa adoravelmente estéril... Jack, pós-balzaquiano, tinha, em suma, tudo o que o modo de vida capitalista ordenava ter. Era bem sucedido aos olhos de todos que o rodeavam, financeiramente independente e ainda poderia ter direito a certo luxos além daqueles dos pequenos-burgueses.... Para os outros, ele tinha tudo.

Mas internamente, Jack sentia que sua vida era uma bosta de um marasmo. Como um grande campo em cinza. Algo uniforme e totalmente desprovido de emoção. Sua bela, sensual e seca esposa lhe sorrindo todos os dias no café da manhã. Os rostos de alunos desinteressados da manhã até a noite. E a noite, o sono ao lado do corpo tão conhecido - uma vez ou outra com direito a concessões sexuais.

E, então, subitamente, a imagem de uma grande estrada veio-lhe a cabeça. Viagem.

Viajar não daquela forma sedentária e comercial que o mundo moderno cultivou, mas daquela forma imprevisível e selvagem de quando os homens eram nomâdes. Sim, isso seria no mínimo um grande alívio para quebrar a rotina.

Depois daquilo, vieram os olhos azuis.

Tão cheios de vida e empolgação, algo da qual a vida de Jack precisava urgentemente. E esses olhos trouxeram consigo sua dona, uma espevitada jovem aluna de dezesseis anos. Tão inocente, mas tão voluptuosa. Como um demônio em vestes angelicais. Ana, era o nome daquela pequena ninfa que virava a cabeça do Professor com tanta facilidade.

E agora aquelas duas idéias se entrelaçavam na mente dele. A imagem de uma longa estrada e a da menina.

Ele só queria poder uni-las e fundir-se a ambas da forma mais profunda e íntima possível. Talvez, aí sim, a vida melhorasse.

domingo, 3 de abril de 2011

Bloody past

Semana passada, há exatos quarenta e sete anos atrás, completou-se mais um sangrento aniversário da história da nossa nação, aquele que marca o golpe militar que depôs João Goulart e instalou um governo repressor no poder.

De 1964 a 1985, durou esse inferno em nosso país. Eleições indiretas, manipulação jurídica, restrição a liberdade de imprensa e perseguição sangrenta aos opositores do sistema - dentre outras barbáries.

Você pode imaginar? Quanto sangue, quantas vidas perdidas, quantos abusos cometidos pelo Exército brasileiro enquanto ocupava a gestão do Brasil.

E o mais chocante é a brutal impunidade em que repousam muitos dos sangrentos repressores. Livres como pássaros recém-nascidos. E as almas perdidas nesse mar de absurdo apenas podem esperar que nós, os vivos, façamos alguma coisa. Qualquer coisa, nem que seja refletir e escrever sobre o que aconteceu. Ou então votar com consciência nas urnas evitando figurinhas carimbadas que apoiaram o regime militar, como Maluf ou  Sarney. Qualquer coisa, real e literalmente, ajuda. Qualquer coisa feita com consciência.


sábado, 2 de abril de 2011

Alice no bordel?

Hoje em dia é difícil dizer quem é Alice. Será que ela ainda é a garotinha loira seguindo o coelho? Ou será que ela cresceu, pintou o cabelo, colocou uma cinta-liga e comprou um chicote?

Certamente, é difícil saber. Alice é tudo e nada, ao mesmo tempo.
A finalidade desse blog, porém, é justamente desvendar Alice. Vamos segui-la, caindo pelo buraco, para descobrir se chegaremos ao País das Maravilhas ou ao Bordel da Rainha Vermelha.